ALMEIDA, W. F. Toxicidade dos formicidas: aspectos toxicológicos dos produtos, prevenção de acidentes, medidas de pronto-socorro. In: MARICONI, F. A. M. As saúvas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1970. p. 112-126.
Resumo: Apresenta o capítulo do médico Waldemar F. Almeida, do Instituto Biológico de São Paulo, sobre a toxicidade dos formicidas usados em 1970. Expõe os fatores que definem o risco de um produto, as medidas gerais de prevenção de acidentes no manuseio e na aplicação, os sinais de alerta de intoxicação e, de forma geral, a toxicologia dos arsenicais, clorados, fosforados, mercuriais e fumigantes. As condutas médicas do original não são reproduzidas, por estarem superadas. Todos os produtos citados estão hoje proibidos ou sem registro para esse uso no Brasil.
Palavras-chave: formicidas; toxicidade; intoxicação; prevenção de acidentes; segurança do trabalho; histórico.
Atenção: conteúdo histórico, não é orientação médica. Os produtos tratados no capítulo original estão proibidos ou sem registro para o controle de formigas no Brasil. As medidas de pronto-socorro e os tratamentos descritos em 1970 foram omitidos, porque vários estão superados pela medicina atual e podem causar dano se aplicados hoje. Em caso de suspeita de intoxicação: afaste a pessoa do produto, ligue para o SAMU (192) ou para o Disque-Intoxicação da Anvisa (0800 722 6001) e leve a embalagem ou a bula do produto ao atendimento.
Um médico no livro sobre saúvas
O capítulo foi escrito por Waldemar F. Almeida, médico e diretor da Divisão de Microbiologia e Higiene do Instituto Biológico de São Paulo, que integrava a Comissão de Toxicologia de Resíduos de Pesticidas da Organização Mundial da Saúde (Almeida, 1970, p. 112). Num tempo em que os formicidas eram muito mais tóxicos que os atuais, o autor do livro fez questão de incluir um capítulo dedicado à segurança de quem aplicava.
O que define o perigo de um formicida
Segundo Almeida (1970, p. 112), a periculosidade de um formicida para o homem e outros mamíferos depende de três fatores: a toxicidade própria do composto, a concentração em que ele está no produto e o tipo de formulação.
Quanto à formulação, o risco para o trabalhador aumentava nesta ordem: iscas granuladas, pós secos, pós molháveis, emulsões diluídas, concentrados emulsionáveis e, por último, os gases fumigantes, os mais perigosos (Almeida, 1970, p. 112). A lógica continua válida: quanto mais fácil o produto chegar à pele e aos pulmões, maior o risco.
Regras de prevenção que continuam valendo
Boa parte das medidas gerais de prevenção listadas em 1970 continua correta e aparece, de outra forma, nas normas atuais de segurança (Almeida, 1970, p. 112-114):
Nunca manipular formicida com as mãos desprotegidas; usar luvas impermeáveis.
Não respirar o pó nem inalar gases e vapores; trabalhar em local aberto e usar máscara adequada sempre que houver risco.
No campo, usar roupa de mangas compridas e bota até o joelho. O autor alertava que o maior perigo está na absorção pela pele intacta, em que as pessoas em geral não acreditam.
Aplicar de modo que o vento leve o pó e os gases para longe do operador.
Trabalhar poucas horas por dia com produtos altamente tóxicos e ter sempre um companheiro por perto em caso de acidente.
Lavar mãos, braços e rosto antes de comer ou fumar; tomar banho e trocar de roupa ao fim do dia e usar macacão limpo no dia seguinte.
Nunca usar aparelho com vazamento.
Manter os produtos fora do alcance de crianças, que são muito mais sensíveis que os adultos, e de pessoas não responsáveis.
Guardar sempre na embalagem original, rotulada, em local próprio e separado de alimentos.
Não reaproveitar embalagens vazias e nunca queimá-las, porque a fumaça intoxica pessoas e animais e afeta lavouras vizinhas.
Evitar que animais domésticos ou silvestres comam as iscas.
Não contaminar fontes, riachos, córregos, poços ou lagoas.
Hoje, a destinação das embalagens vazias segue regras próprias, com tríplice lavagem quando indicada e devolução no posto informado na nota fiscal, e não o enterro mencionado no texto de 1970.
Sinais de alerta
O capítulo orientava que, ao primeiro sinal de mal-estar durante o trabalho com formicidas, o serviço fosse interrompido e a pessoa levada com urgência ao serviço de saúde mais próximo. Entre os sinais citados estão dor de cabeça, fraqueza, náuseas, vômitos, cólicas, diarreia, tonturas, visão dupla, tremores, cãibras, contrações involuntárias, convulsões, suor e salivação abundantes, dificuldade de coordenação e perda de sensibilidade (Almeida, 1970, p. 114).
O autor insistia em que toda intoxicação devia ser tratada como risco de vida, mesmo quando parecesse leve, e que o responsável pelos trabalhos devia procurar imediatamente um médico (Almeida, 1970, p. 114). Esse princípio continua atual.
A toxicologia dos produtos da época
O capítulo resume a toxicologia dos compostos então usados em formicidas: arsenicais, como o trióxido de arsênio; clorados orgânicos, como aldrin, clordane, heptacloro, para-diclorobenzeno e dodecacloro (Mirex); fosforados orgânicos, como o dissulfotom; mercuriais orgânicos; e fumigantes, como o brometo de metila e o bissulfeto de carbono (Almeida, 1970, p. 116-126). Alguns pontos ilustram o risco daquela geração de produtos:
Arsenicais: durante muitos anos foram a causa mais frequente de mortes acidentais com pesticidas. Houve intoxicações pela confusão do pó branco de arsênio com farinha no preparo de alimentos, motivo pelo qual a lei obrigava a adição de um corante azul (Almeida, 1970, p. 117-118).
Clorados orgânicos: absorvidos pela pele, pela respiração e pela digestão, atuam sobre o sistema nervoso e se acumulam na gordura do corpo. Por isso, o gado de leite e de corte devia ser mantido longe das áreas tratadas, sob risco de resíduos no leite e na carne (Almeida, 1970, p. 118).
Fosforados orgânicos: o capítulo recomendava, para trabalhos contínuos, exame periódico de colinesterase no sangue dos aplicadores, para identificar quem estava se contaminando (Almeida, 1970, p. 120-121).
Mercuriais orgânicos: altamente tóxicos, com lesões renais e do sistema nervoso que podiam surgir meses depois da exposição (Almeida, 1970, p. 121).
Essas características, como a persistência no ambiente, o acúmulo no organismo e a alta toxicidade aguda, estão entre as razões pelas quais esses produtos deixaram de ser permitidos.
O que fica do capítulo
A parte mais duradoura do texto é a cultura de prevenção: proteger a pele e a respiração, respeitar o vento, nunca trabalhar sozinho com produto perigoso, cuidar da higiene, guardar o produto com segurança e afastar crianças e animais. Para os formicidas atuais, as regras específicas de EPI, primeiros socorros e destinação estão na bula, na ficha de segurança do produto e na receita agronômica.
Referências
ALMEIDA, W. F. Toxicidade dos formicidas: aspectos toxicológicos dos produtos, prevenção de acidentes, medidas de pronto-socorro. In: MARICONI, F. A. M. As saúvas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1970. p. 112-126.