MARICONI, F. A. M. As saúvas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1970.

Resumo: Descreve a saúva-parda, Atta capiguara, espécie praga de pastagens e a mais difícil de combater entre as saúvas paulistas. Apresenta o histórico da espécie, o sauveiro inicial, os carreiros, os olheiros em funis e discos, a separação entre sede aparente e sede real, a distribuição de 96 panelas em até mais de 5 m de profundidade, a esponja, o comportamento das castas, a revoada e a invasão por outras saúvas. Expõe ainda as medidas de combate da época, como reflorestamento, aração e mudança de cultura. Os produtos químicos citados estão proibidos.

Palavras-chave: saúva-parda; Atta capiguara; pastagem; sede aparente; sede real; combate.

Atenção: a parte de combate químico deste artigo é histórica. Os produtos usados em 1970 (aldrin, clordane, heptacloro, dodecacloro/Mirex, brometo de metila e bissulfeto de carbono) estão proibidos no Brasil, e as doses do livro foram omitidas. Para controlar formigas hoje, use apenas produtos registrados no Agrofit, siga a bula e a receita agronômica.

A saúva que demorou a ser conhecida

Para Mariconi (1970, p. 143), a saúva-parda talvez fosse a saúva mais interessante e, até pouco tempo antes, uma das menos conhecidas. Ele aponta três razões: era a espécie descrita mais recentemente, tinha sido registrada em apenas três estados e suas operárias eram muitas vezes confundidas com as de outras espécies.

A espécie foi descrita por Gonçalves em 1944, a partir de material do bairro de Jacuí, na cidade de São Paulo; a planta cortada citada era o capim-barba-de-bode (Aristida pallens). Já em 1945 se verificava que a sede viva não fica sob o grande monte de terra solta (Gonçalves, 1944b, 1945b apud Mariconi, 1970, p. 143). O primeiro estudo mais amplo do sauveiro e da vida dessas formigas registrou a espécie em outras 14 cidades paulistas, entre elas Piracicaba, Anhembi, Araraquara, Botucatu e Charqueada (Mariconi; Zamith; Paiva Castro, 1961 apud Mariconi, 1970, p. 143).

Sede aparente e sede real

O monte de terra solta é a sede aparente; a região onde estão as panelas é a sede real, e as duas nem sempre coincidem (Mariconi, 1970, p. 26-27). Na saúva-parda essa separação é marcante: as panelas vivas não ficam embaixo do grande monte de terra solta, e sim em discos de terra solta espalhados ao redor, como mostra o mapa de um sauveiro com 13 discos ao lado da sede aparente (Mariconi, 1970, fig. 55).

Esse detalhe explica quase tudo o que vem a seguir, inclusive por que o combate falhava tanto.

O sauveiro inicial

O sauveiro inicial é idêntico ao das outras espécies, com diferenças apenas nas dimensões do canal e da panelinha. No fim de 1968, o autor marcou 50 sauveiros iniciais com 48 horas de formação e abriu 25 para estudo. Dos 25 restantes, nenhum chegou a sauveiro adulto: todos morreram antes do primeiro olheiro. A amostra é pequena, mas indica que, como na saúva-limão, o número de sauveiros iniciais se reduz muito (Mariconi, 1970, p. 148).

Carreiros e olheiros

Os carreiros são relativamente curtos: os mais longos raramente passam de 40 m. Têm de 3 a 5 cm de largura e podem ser simples ou ramificados. Em regra, não têm material verde abandonado (Mariconi, 1970, p. 148-149).

Os olheiros da sede aparente ficam em funis pouco profundos ou no nível da terra solta, porque a formiga consegue restringir muito a retirada de terra por eles. Os funis se formam porque a operária não espalha os torrõezinhos: ao chegar à borda, deixa a partícula rolar. Os olheiros dos discos também ficam em funis (Mariconi, 1970, p. 149).

Em geral, a sede aparente tem menos olheiros que a das outras saúvas. E há um sinal útil no campo: ao raspar a terra solta de cada disco, aparece só um olheiro na terra firme, qualquer que seja o número de olheiros na terra solta. Se aparecerem dois, é sinal de que dois discos cresceram e se uniram (Mariconi, 1970, p. 151).

Panelas espalhadas e profundas

As panelas da sede real ficam mais distanciadas umas das outras que nas demais saúvas. Na sede aparente predominam panelas de lixo, de lixo com terra e vazias; na sede real, predominam panelas com fungo e vazias (Mariconi, 1970, p. 151).

Na sede real, as panelas se ligam aos canais de trânsito por canais finos, horizontais ou pouco inclinados, que entram pela parede lateral, quase no nível do assoalho. A panela mais rasa encontrada estava a só 30 cm da superfície, mas elas chegam a mais de 5 m de profundidade. As maiores podem ter capacidade enorme, a ponto de abrigar uma ou mais pessoas em pé (Mariconi, 1970, p. 151).

A escavação completa de um sauveiro em Piracicaba, em maio e junho de 1966, levou 10 dias. A sede aparente tinha 26 panelas; a sede real, com apenas dois discos, tinha 96 (Mariconi, 1970, p. 150).

Esponja e formigas

As esponjas vivas são brancas e ocupam boa parte da panela. O meio de cultura do fungo é bem mais grosseiro que o das outras saúvas paulistas: medições de 75 partículas vegetais deram de 6 a 37 mm de comprimento, com média de 16,86 mm (Mariconi, 1970, p. 151-153).

Entre as espécies de São Paulo, a saúva-parda é a menos agressiva. Os soldados são difíceis de fazer aparecer e, numa escavação, a proporção deles na população é pequena, característica bem diferente das outras espécies. Eles conseguem cortar a pele humana, mas suas mandíbulas são menos resistentes que as dos soldados das outras saúvas paulistas; as operárias médias atacam, mas geralmente não cortam a pele (Mariconi, 1970, p. 154-155).

As operárias são muito ativas e não param com tempo encoberto e frio. Na região de Piracicaba, a espécie parecia mais resistente ao clima adverso que a saúva-limão, embora a saúva-de-vidro trabalhasse por mais tempo sob sol, frio e vento (Mariconi, 1970, p. 156).

Revoada, rainhas e invasoras

Nas outras espécies, as formas aladas saem quase todas pelo monte de terra solta. Na saúva-parda, içás e bitus saem por olheiros dos discos ou da terra firme, e até então não se havia comprovado saída pela sede aparente (Mariconi, 1970, p. 156). Num dos sauveiros mapeados, de 18 olheiros de revoada, 11 estavam em discos e 7 em terra firme, 6 deles já fora da sede real (Mariconi, 1970, fig. 55).

Em laboratório, colônias de saúva-parda chegaram a aceitar uma rainha de saúva-limão e, depois, uma içá de saúva-mata-pasto, mas o autor considera provável que não haja substituição de rainhas na natureza (Mariconi et al., 1963 apud Mariconi, 1970, p. 156).

É comum a saúva-de-vidro invadir colônias de saúva-parda, mortas ou enfraquecidas. Em campos experimentais onde só os sauveiros de saúva-parda foram tratados, a saúva-de-vidro chegou a aumentar a infestação ocupando os ninhos já formados. A invasão pela saúva-limão também ocorre, mas parece rara (Mariconi, 1970, p. 156).

Por que o combate falhava

Muitos pecuaristas se queixavam dos danos às pastagens e da enorme dificuldade de combate. Em várias propriedades, os resultados foram péssimos, e o principal motivo era justamente o de as panelas vivas não estarem sob o grande monte de terra solta (Mariconi, 1966a apud Mariconi, 1970, p. 157). Quem trata só a sede aparente trata a parte errada do formigueiro.

Medidas de manejo da época

  • Reflorestamento: a saúva-parda faz ninho em local livre de sombra. Fazendeiros que plantaram eucalipto em áreas muito infestadas viram os sauveiros ficarem paralisados com o sombreamento do solo. Para o autor, era uma das medidas ideais, com a desvantagem de ser de longo prazo; eucalipto, pinus e outras essências florestais servem, porque a saúva-parda não os ataca (Mariconi, 1966c apud Mariconi, 1970, p. 157).

  • Aração e gradagem: os formigueiros de saúva-parda morrem se a área for arada e gradeada no início da seca e mantida livre de gramíneas por cerca de 120 dias. Depois disso, pode-se replantar o capim. Os sauveiros de saúva-de-vidro e de saúva-limão não morrem com essa prática (Mariconi, 1970, p. 157).

  • Mudança de cultura: em locais muito infestados, plantar culturas que não sejam gramíneas, como algodão ou soja, mantidas no limpo, faz a saúva desaparecer (Mariconi, 1970, p. 157).

O combate químico de 1970 (histórico)

O livro descreve o uso de pós, líquidos, gases e iscas à base de produtos hoje proibidos no Brasil, com aplicação por bombas manuais ou máquinas motorizadas como a "Mata Atta", cuja fumaça saindo pelos olheiros revelava a extensão do sauveiro (Mariconi, 1970, p. 157-159). Esses produtos não devem ser usados, e as doses foram omitidas.

Um princípio, porém, continua atual: a isca devia ser colocada nos carreiros, perto dos olheiros que servem de entrada para o material vegetal, os olheiros de alimentação. Isca posta em volta dos olheiros da sede aparente não era carregada pelas formigas (Mariconi, 1970, p. 159).

O que levar para o campo

Na saúva-parda, o monte de terra solta engana. Antes de qualquer tratamento, vale localizar os discos e os carreiros ativos, porque é ali, e não no monte maior, que está a colônia viva.

Referências

MARICONI, F. A. M. As saúvas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1970.