MARICONI, F. A. M. As saúvas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1970.
Resumo: Registra os defensivos usados contra as saúvas em 1970 e sua classificação. Distingue formicidas com ação sauvicida, como arsenicais, clorados (aldrin, clordane, dodecacloro e heptacloro) e fumigantes (bissulfeto de carbono e brometo de metila), do BHC, formicida sem ação sauvicida, e de outros compostos, como para-diclorobenzeno, fósforo branco, mercúrio e dissulfotom, aos quais o autor já se opunha pelo risco ao homem. Todos esses produtos estão hoje proibidos ou sem registro para esse uso no Brasil; o texto tem caráter apenas histórico.
Palavras-chave: saúva; formicidas; clorados; fumigantes; histórico; toxicidade.
Atenção: conteúdo histórico. Nenhum dos produtos citados neste artigo deve ser usado. Todos estão proibidos ou sem registro para o controle de formigas no Brasil, e vários são altamente tóxicos e persistentes no ambiente. As doses e formulações do livro foram omitidas de propósito. Para controlar formigas hoje, use apenas produtos registrados no Agrofit, siga a bula e a receita agronômica.
Formicida não é o mesmo que sauvicida
O autor faz uma distinção que continua útil: um produto pode ser muito bom contra formigas em geral, inclusive saúvas andando nos carreiros, e não funcionar bem contra o sauveiro. Por isso, "formicida" e "sauvicida" nem sempre querem dizer a mesma coisa (Mariconi, 1970, p. 104).
Em 1970, os defensivos usados contra as saúvas, recomendados oficialmente ou não, eram classificados assim (Mariconi, 1970, p. 103):
Grupo | Produtos |
|---|---|
Formicidas com ação sauvicida: arsenicais | Compostos de arsênio |
Formicidas com ação sauvicida: clorados | Aldrin, clordane, dodecacloro e heptacloro |
Formicidas com ação sauvicida: fumigantes | Bissulfeto de carbono e brometo de metila |
Formicida, mas não sauvicida | BHC |
Outros compostos | Para-diclorobenzeno, éster-cloro-fenol, fósforo branco, mercúrio e dissulfotom |
Fonte: Mariconi (1970, p. 103).
Arsenicais
Já em 1970 os arsenicais não eram recomendados oficialmente, mas muitos lavradores ainda os usavam (Mariconi, 1970, p. 104).
Os clorados
Aldrin: descoberto nos Estados Unidos em 1948, seu uso logo virou prática comum. Agia sobretudo por contato. O próprio autor já advertia que não devia ser usado dentro de casas, estábulos, cocheiras e galinheiros, pelo perigo ao homem e aos animais domésticos, e que podia favorecer ácaros, pulgões e cochonilhas por desequilíbrio biológico (Mariconi, 1970, p. 104-105).
Clordane: descoberto em 1945, foi por anos o melhor baraticida conhecido, até a barata-alemã desenvolver resistência a ele (Mariconi, 1970, p. 105).
Dodecacloro (Mirex): descoberto nos Estados Unidos, onde foi muito usado contra a formiga-de-fogo. Agia sobre a saúva por ingestão, envenenando o fungo, com pouca ação de contato. Em 1970 era vendido no Brasil como isca granulada, ainda não formulada no país (Mariconi, 1970, p. 106).
Heptacloro: à venda no Brasil desde 1960. Em São Paulo, a equipe do autor foi a primeira a comprovar, em campos experimentais de Piracicaba, sua ação contra sauveiros. Também não podia ser usado em residências, estábulos, galinheiros e pocilgas (Mariconi, 1970, p. 106-107).
Os fumigantes
Bissulfeto de carbono: fumigante antigo, usado primeiro na França contra a filoxera da videira e lançado no Brasil como formicida em 1873. Líquido de cheiro desagradável, que evapora rápido e forma vapores muito explosivos quando misturados ao ar. O autor recomendava não usá-lo se houvesse outro bom fumigante, nem deixá-lo nas mãos de pessoas inexperientes (Mariconi, 1970, p. 107-108).
Brometo de metila: gás incolor e inodoro, mais pesado que o ar, que ferve a 4,5 °C. Para o autor, talvez fosse o melhor sauvicida até então, mas seu uso caía por causa do preço. Era vendido com 2% de cloropicrina, justamente para que o operador percebesse um vazamento pela irritação nos olhos e no nariz (Mariconi, 1970, p. 108-109).
BHC: formicida, mas não sauvicida
O BHC era muito usado contra saúvas andando nos carreiros, mas, aplicado dentro do sauveiro, não matava a colônia; por isso não era recomendado contra sauveiros. Foi importante na história agrícola por ter permitido a recuperação da lavoura cafeeira atacada pela broca-do-café. Tinha cheiro forte de mofo e alterava o gosto de frutas e hortaliças (Mariconi, 1970, p. 109-110).
Produtos que o autor já condenava em 1970
Mariconi (1970, p. 110-111) separa dois produtos de pouco ou nenhum valor, o para-diclorobenzeno e o éster-cloro-fenol do ácido sulfovinílico, e três aos quais se dizia radicalmente contrário, pelo imenso perigo de envenenamento humano:
Fósforo branco: altamente inflamável e muito perigoso para o homem.
Mercúrio: presente numa formulação paulista para combater o fungo da saúva. O autor reconhecia a eficiência, mas era totalmente contra seu uso.
Dissulfotom: inseticida fosforado sistêmico, muito tóxico para o homem, destinado a sementes e solo. Também aqui o autor reconhecia a eficiência e era totalmente contra o uso contra formigas.
Por que registrar isso hoje
O capítulo mostra o que se aplicava no solo brasileiro há meio século e ajuda a entender por que a regulação ficou muito mais rígida. Ele também explica por que alguns nomes antigos, como "Mirex" ou "BHC", ainda aparecem no campo como sinônimo de formicida.
Esses produtos não têm mais lugar no controle de formigas. Hoje, a escolha deve se limitar aos formicidas registrados para a cultura e para o alvo, conforme o Agrofit, com receita agronômica, EPI e respeito à bula.
Referências
MARICONI, F. A. M. As saúvas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1970.