Resumo técnico elaborado a partir de "As Saúvas", de F. A. M. Mariconi (Ceres, 1970).

"Ou o Brasil mata a saúva ou a saúva mata o Brasil." A frase é de 1822 e virou slogan — mas o registro do problema começa bem antes, e o prejuízo vai muito além da lavoura.

O prejuízo não para na plantação

Todo mundo conhece o dano em eucaliptal, laranjal, algodoal e mandiocal. Mariconi chama atenção para a parte que quase ninguém associa à saúva: o dano em construção.

As galerias e panelas de um sauveiro cedem sob o peso das paredes de uma casa. O resultado aparece primeiro como fenda; nos casos graves, a parede cede e cai. Às vezes a construção não chega a cair, mas sai do prumo.

A lista de estruturas afetadas inclui prédios, represas, pontes e pontilhões, estradas de rodagem e de ferro, e até mausoléus e túmulos.

O que cada espécie ataca

O levantamento por espécie mostra que o cardápio é amplo e muito parecido entre elas:

EspéciePrincipais plantas atacadas
A. sexdens rubropilosaEucalipto, citros, cafeeiro, cana-de-açúcar, algodoeiro, mandioca, milho, capins, pinheiro, mangueira, videira, roseira e muitas outras
A. sexdens sexdensEucalipto, citros, cafeeiro, cana, algodoeiro, mandioca, capins, macieira, palmeiras
A. opacicepsEucalipto, citros, cafeeiro, cana, algodoeiro, mandioca, milho, capins, roseira
A. sexdens piriventrisCitros, capins, mandioca, macieira, pereira, pessegueiro, videira, roseira
A. robustaLaranjeira e outros citros
A. vollenweideriGramíneas e dicotiledôneas, sem especificação na bibliografia

Um detalhe curioso do levantamento: as saúvas não carregam só material vegetal. Foram registrados também gravetos secos, fezes de vaca e de pássaro, pedaços de papel, tocos de cigarro, pedaços de pão e de bolo — e, claro, isca granulada.

Quatro séculos de queixa

Os relatos sobre o estrago começam no século XVI e são notavelmente consistentes.

1560 — O padre jesuíta José de Anchieta, em suas Cartas, é aparentemente o primeiro a registrar essas formigas, descrevendo as içás pela cor avermelhada, pelo cheiro de limão quando esmagadas e pelos grandes buracos que abrem no chão.

1587 — Gabriel Soares de Souza, no Tratado Descritivo do Brasil, atribui às formigas a dificuldade de produzir vinho: numa noite elas cortam as folhas e os frutos da parreira inteira.

Século XVI — Gândavo chama a saúva de "Rei do Brasil", depois de concluir que era ela quem mandava na lavoura.

1788 — O marechal José Arouche de Toledo Rondon escreve que as saúvas comem mais pastagem que o gado, que numa noite desfolham um arvoredo inteiro e que, além do dano diário, a multiplicação delas inutiliza terras com rapidez notável.

1816–1822 — Saint-Hilaire percorre o interior do país e cunha a frase que atravessou dois séculos.

1819 e 1831 — Humboldt e Lund registram seu espanto com a atividade devastadora da saúva.

1867 — H. Clark resume: "O Brasil é um grande formigueiro."

1894 — Fernando Pinheiro Pais Leme a classifica como o inseto que mais prejudica a lavoura no clima brasileiro, obrigando o lavrador a trabalhos longos e caros.

O Estado entra na briga — em 1785

A primeira legislação é mais antiga do que se imagina. Em 1785, a Câmara de Salvador legislou sobre a extinção de formigueiros nas zonas agrícolas, e as posturas não eram brandas: o lavrador era obrigado a destruir os formigueiros de sua propriedade, sob pena de multa e 30 dias de cadeia.

Depois vieram os serviços públicos de combate:

  • 1903 — Prefeitura de Manaus cria serviço de extinção
  • 1910 a 1912 — Governo paulista confia a Renato Zamith a direção do serviço de combate
  • 1917 — O então Distrito Federal regula a extinção em locais públicos e terrenos particulares
  • 1918 — Belo Horizonte cria seu serviço municipal
  • 1935 — São Paulo cria o Serviço de Extinção de Formigueiros

E a indústria também

A corrida por soluções técnicas é igualmente antiga. Em 1873, Guilherme Capanema — o Barão de Capanema — obteve privilégio para o "processo de extinção da formiga saúva por meio de sulfeto de carbono", com prazo de 10 anos.

De 1883 em diante vieram outros: máquina para injetar gases asfixiantes nas galerias, trado de ferro e aço seccionado para perfurar formigueiros, formicidas sulfurinos, aparelhos de aplicação. Entre 1883 e 1894, só na lista reunida por Mariconi, aparecem quase uma dezena de privilégios distintos.

Mariconi observa que a relação seria enorme se fosse completa.

O que fica disso

Duas leituras possíveis.

A primeira é de perspectiva: o problema que você enfrenta no talhão hoje é o mesmo que Anchieta descreveu em 1560 e que fez a Câmara de Salvador prever cadeia em 1785. Mudaram os métodos, não o adversário.

A segunda é de humildade técnica: boa parte do que foi inventado em 150 anos de tentativas não funcionou, ou funcionou pouco. Vale lembrar disso diante de qualquer solução nova apresentada como definitiva.

Fonte

MARICONI, F. A. M. As Saúvas, capítulo 1 — Importância, prejuízos e histórico das saúvas. Os registros históricos reunidos pelo autor vêm de Dafert & Rivinius (1896), Lisboa (1948) e Autuori (1949).