FORTI, L. C.; BOARETTO, M. A. C. Formigas cortadeiras: biologia, ecologia, danos e controle. Botucatu: FCA-UNESP, 1997.
Resumo: Explica como a isca formicida age no formigueiro e como deve ser aplicada. Descreve o substrato atrativo, as características exigidas do inseticida e o processamento da isca pelas operárias, com contaminação de 50% a 70% da colônia em 24 horas por ingestão e trofalaxia. Desfaz dois mitos: o de que a isca libera gás e o de que muda a cor das formigas. Apresenta o cálculo da dose pela área do murundu, a aplicação a granel e em porta-iscas, as causas da subdose e as precauções de uso.
Palavras-chave: isca formicida; saúva; trofalaxia; dose; porta-isca; controle químico.
O que é a isca
A isca tóxica é uma mistura de substrato atrativo com um princípio ativo, em forma de pellets, distribuída nas trilhas perto da colônia para que as próprias formigas a levem para dentro. É a técnica mais comum: eficiente, prática e econômica. Tem limitações: não pode ser usada em períodos chuvosos nem em áreas muito extensas, e pode intoxicar animais silvestres (Forti; Boaretto, 1997, p. 43).
O substrato padrão é a polpa cítrica desidratada, de laranja; já foram testados milho, folha de eucalipto, farinha de mandioca, farelo de soja, bagaço e melaço de cana. A polpa cítrica atrai bem as cortadeiras de folha larga, mas há dúvida sobre sua atratividade para as cortadeiras de gramíneas, o que, segundo alguns autores, explicaria a baixa eficiência contra essas espécies (Forti; Boaretto, 1997, p. 43-44).
O inseticida geralmente é dissolvido em óleo de soja refinado e incorporado ao substrato. Ele precisa agir por ingestão, ser inodoro, não repelente, ambientalmente aceitável, letal em baixa concentração e de ação retardada. Até 1992 só existia um ingrediente ativo no mercado, o dodecacloro, um organoclorado persistente no solo e bioacumulativo; à época do livro, os ativos em uso eram a sulfluramida e o fipronil (Forti; Boaretto, 1997, p. 44).
Como a isca mata o formigueiro
As formigas lambem os pellets e ingerem pequenas partículas com inseticida, como fazem com a folha. A intoxicação é por ingestão e, provavelmente, por um pouco de contato. Hidratados, os pellets se fragmentam, e as operárias passam a incorporá-los cerca de 6 horas depois de oferecidos. Em 24 horas, 50% a 70% das operárias da colônia estão contaminadas (Forti; Boaretto, 1997, p. 44).
A contaminação se espalha por ingestão direta e por trofalaxia, a troca de alimento e secreções entre as formigas: uma operária guarda o inseticida no papo e o regurgita para outras, numa reação em cadeia. As generalistas e as jardineiras, que cuidam do fungo, são contaminadas mais intensa e rapidamente (Forti; Boaretto, 1997, p. 44-45).
Por isso o bom ativo é o de ação retardada, que não mata a formiga logo e age de alta a baixíssima concentração. Inseticidas que matam rápido interrompem a cadeia. Com a morte das operárias, o cultivo de fungo se desorganiza, fungos contaminantes crescem e o formigueiro morre em poucos dias (Forti; Boaretto, 1997, p. 45).
Na sequência descrita para a sulfluramida em saúva-limão, as formigas deixam de cortar em 3 a 4 dias, há grande mortalidade de jardineiras, o fungo se desorganiza após o quarto dia e, a partir do 13º dia, só a rainha está viva, podendo sobreviver até 40 dias (Forti; Boaretto, 1997, p. 46).
Dois mitos
A isca não libera gás. O ingrediente ativo não solta gás tóxico que mata o fungo, como alguns técnicos afirmavam (Forti; Boaretto, 1997, p. 45).
A isca não muda a cor das formigas. Quando se aplica subdose, a colônia se desorganiza e formigas recém-emergidas, de cor mais clara, passam a forragear. É isso que se vê na trilha (Forti; Boaretto, 1997, p. 45).
Antes de aplicar: vistoria
O ideal é o combate preventivo, que facilita ver colônias pequenas e grandes. Roçada, aração e sulcamento destroem o formigueiro só na superfície: dão a falsa impressão de que ele foi eliminado e fazem subestimar seu tamanho. Por isso a vistoria é fundamental: identificar quais espécies ocorrem e controlar antes do preparo do solo (Forti; Boaretto, 1997, p. 48).
Como calcular a dose
Para saúva, a dose é por área de terra solta (murundu), em geral de 6 a 10 g/m², conforme o ingrediente ativo, a concentração e a recomendação do fabricante. Para quenquém não é preciso calcular área: a dose é por formigueiro. Os autores reconhecem que a dose por área é empírica, mas sem alternativa (Forti; Boaretto, 1997, p. 48).
A área é a maior largura multiplicada pelo maior comprimento do murundu. Na saúva-parda, entram também os montículos menores e os olheiros ao lado do monte principal (Forti; Boaretto, 1997, p. 48).
Exemplo: murundu de 10 m × 5 m = 50 m². Com recomendação de 10 g/m², a dose é de 500 g (Forti; Boaretto, 1997, p. 48-50).
Como aplicar a granel
A isca a granel sai direto da embalagem, sem contato manual, numa única vez. Vai ao lado das trilhas com olheiros ativos, a 10 a 25 cm do buraco, perto do murundu, onde há mais movimento, e no maior número possível de olheiros ativos. Eventualmente pode ir em olheiros sobre o murundu, se ali não houver saída de terra solta, exceto na saúva-parda e na mata-pasto (Forti; Boaretto, 1997, p. 50).
Por que a segunda aplicação falha
Subestimar a área leva à subdose. O formigueiro fica debilitado por um tempo, com poucas operárias, e reaplicar logo depois não resolve. Não é rejeição da isca, como muitos acreditam: faltam operárias aptas a carregar e processar a nova isca (Forti; Boaretto, 1997, p. 50).
Também não se comprovou, até a publicação, a ideia de trocar de ingrediente ativo para "quebrar a resistência" das formigas (Forti; Boaretto, 1997, p. 51).
Porta-iscas e micro-porta-iscas
Os porta-iscas surgiram para evitar a morte de animais silvestres, que ajudam no controle natural, e também reduzem mão de obra e perdas pela chuva. São recipientes plásticos de 5 a 60 g; os de 5 ou 10 g são os micro-porta-iscas (MIPIs), cujo uso cresceu nas florestas plantadas com o cultivo mínimo (Forti; Boaretto, 1997, p. 50-51).
Sistemático: 40 a 80 porta-iscas de 20 g por hectare, conforme a infestação.
Generalizado: em formigueiros grandes.
MIPIs: 1,6 a 3,0 kg/ha, espaçados de 6 × 6 m ou 9 × 9 m, cerca de um mês antes do corte do eucalipto ou 15 dias após a roçada; para controle preventivo, colônias novas de saúva e adultas de quenquém.
Fonte: Forti e Boaretto (1997, p. 51).
Os autores ressalvam que faltavam dados para definir com precisão a densidade de porta-iscas e que eles aumentam o tempo de exposição do produto no campo, atingindo organismos não-alvo, como formigas predadoras (Forti; Boaretto, 1997, p. 51).
Precauções
Aplicar as iscas antes de qualquer prática cultural.
Nunca usar dose menor que a recomendada.
Onde houver animais, usar porta-iscas, exceto os MIPIs.
Solo muito úmido hidrata a isca, que perde atratividade.
A isca deve ser carregada pelas formigas: nunca colocar dentro dos olheiros.
Colocar ao lado das trilhas, sem interromper o fluxo das formigas.
Fonte: Forti e Boaretto (1997, p. 52).
O controle também não deve ficar restrito a uma propriedade: vizinhos precisam agir em conjunto (Forti; Boaretto, 1997, p. 52).
Nota de atualização
A tabela de produtos registrados do livro é de 1997 e não é reproduzida aqui. Os ingredientes ativos e marcas registrados mudaram desde então. Consulte o Agrofit, do Ministério da Agricultura, para os produtos registrados para formigas cortadeiras, e siga a bula e o receituário agronômico.
Referências
FORTI, L. C.; BOARETTO, M. A. C. Formigas cortadeiras: biologia, ecologia, danos e controle. Botucatu: FCA-UNESP, 1997.