MARICONI, F. A. M. As saúvas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1970.

Resumo: Descreve os animais associados aos sauveiros e os inimigos naturais das saúvas. Apresenta os hóspedes das panelas de lixo, como besouros do gênero Coelosis, moscas Mydas e vespas Scolia, que não atacam as formigas. Relaciona os inimigos propriamente ditos, como moscas da família Phoridae, formigas carnívoras, aves, tamanduás, tatus e pequenos vertebrados, e discute a fama da formiga cuiabana. Conclui que as aves, especialmente os pássaros, e os besouros do gênero Canthon são os inimigos naturais mais importantes.

Palavras-chave: saúva; inimigos naturais; panelas de lixo; Phoridae; Paratrechina fulva; controle biológico.

Os moradores do lixo

As panelas de lixo, onde as saúvas descartam os resíduos do fungo e as formigas mortas, são depósitos de matéria orgânica ligados à colônia por canais. Nelas se desenvolve uma fauna própria, com insetos das ordens Hemiptera, Coleoptera e Diptera, além de vermes, moluscos e aracnídeos (Autuori, 1942c, 1952 apud Mariconi, 1970, p. 78).

Esses animais, aparentemente, não são incomodados pelas saúvas e não as atacam: não são, portanto, seus inimigos. Algumas espécies passam toda a vida nas panelas de lixo; outras ficam ali só parte do ciclo (Mariconi, 1970, p. 78).

Os principais formam uma pequena cadeia alimentar (Mariconi, 1970, p. 78-80):

  • Besouros do gênero Coelosis (família Scarabaeidae): as larvas se alimentam do lixo. São quatro espécies, C. biloba, C. bicornis, C. sylvanus e C. inermis, de 26 a 44 mm de comprimento. Os machos têm um prolongamento na cabeça que pode lembrar um chifre. O adulto de C. biloba é chamado pelo povo de "pai do sauveiro"; a espécie que o autor mais encontrou foi C. bicornis.

  • Moscas do gênero Mydas (família Mydidae): as larvas vivem nas panelas de lixo e comem as larvas dos besouros. A família reúne moscas provavelmente não superadas em tamanho por nenhuma outra: o adulto de M. heros mede de 32 a 60 mm.

  • Vespas do gênero Scolia (família Scoliidae): as larvas também atacam as larvas dos besouros, sugando-as até restar só a pele. Scolia variegata, amarela com faixas negras, é muito comum no verão, voando sobre os montes de terra dos sauveiros.

Também foram encontrados nos formigueiros colêmbolos, baratas dos gêneros Attaphila e Atticola, besouros saprófagos e lagartas de uma pequena mariposa que se alimentam das esponjas abandonadas (Mariconi, 1970, p. 80).

Mosquinhas que parasitam operárias

As moscas da família Phoridae são muito pequenas, de 1,4 a 2,8 mm, e suas larvas parasitam as operárias. Os adultos são vistos com frequência voando em torno dos olheiros: pairam a pouca altura sobre as formigas, aproximam-se por trás, injetam um ovo entre os segmentos do abdome e fogem (Borgmeier, 1928, 1931, 1968 apud Mariconi, 1970, p. 82).

Já foram registradas espécies dos gêneros Apocephalus, Homalophora, Myrmosicarius, Neodohrniphora e Procliniella parasitando várias saúvas. Seu valor real no combate, porém, é considerado insignificante, porque o parasitismo é muito baixo e só as operárias são atacadas (Mariconi, 1970, p. 82-83).

Formigas contra formigas

Formigas carnívoras, principalmente as do gênero Solenopsis (lava-pés), invadem sauveiros fracos quando falta alimento mais fácil, roubam ovos, larvas e pupas e causam tal desordem na cultura de fungo que muitas vezes matam a colônia. Onde encontram alimento, não atacam os formigueiros (Oliveira Filho, 1934; Lisboa, 1948 apud Mariconi, 1970, p. 83).

A formiga bandeirante, Nomamyrmex esenbecki, foi apontada por Barcelos (1937) como responsável pela limpeza de áreas de São Paulo antes infestadas por saúva-limão e saúva-de-vidro. Vários cientistas discordaram, e acredita-se que seu valor seja pequeno (Mariconi, 1970, p. 83).

A fama da cuiabana

A formiga mais famosa é a cuiabana ou formiga-paraguaia, Paratrechina fulva, de 2,5 a 3,0 mm e cor pardo-escura. Sua fama se baseia na crença de que combate saúvas e quenquéns, e essa crença continuava viva entre lavradores e leigos (Mariconi, 1970, p. 83-84).

A literatura diz o contrário. A cuiabana ataca a saúva de vez em quando, mas seus ninhos podem ficar muito perto de sauveiros sem animosidade aparente (Townsend, 1921 apud Mariconi, 1970, p. 83). Já em 1916 se registrava que ela não extingue os formigueiros e, além disso, protege pulgões e cochonilhas que atacam as culturas (Costa Lima, 1916 apud Mariconi, 1970, p. 84). O Instituto Biológico de São Paulo instalou enxames de cuiabana perto de sauveiros e nunca observou hostilidade nem capacidade destrutiva (Rocha Lima, 1944 apud Mariconi, 1970, p. 84).

Em resumo: a cuiabana não resolve o problema e ainda pode virar praga.

Aves: as aliadas que passam despercebidas

O trabalho das aves passa despercebido, mas um número enorme de içás é devorado por elas. Autuori observou que os pardais são notáveis colaboradores do homem: perto das cidades, dizimam as içás durante as revoadas, aproveitando o momento em que elas saem do canal com a pelota de terra entre as mandíbulas. Esperam vários minutos, dão um salto, cortam a içá em duas com golpes de bico e levam o abdome (Autuori, 1941 apud Mariconi, 1970, p. 86).

As aves domésticas devoram operárias durante o dia, mas o efeito é pequeno, porque as formigas passam a trabalhar só à noite, quando as aves estão em repouso (Mariconi, 1970, p. 86).

Para o autor, uma das causas da infestação mais intensa naquela época era a perseguição aos pássaros, seja pela caça direta, seja pela derrubada e queima das matas, que os afugenta. Ele aponta esse como um dos principais fatores da forte infestação da saúva-parda (Atta capiguara) em São Paulo (Mariconi, 1970, p. 86).

Tamanduás, tatus e pequenos caçadores

O tamanduá introduz a língua comprida e viscosa nos canais ou captura formigas nos carreiros, mas acredita-se que seu valor seja pequeno. Os tatus visitam sauveiros velhos, vasculhando as panelas em busca das esponjas, e talvez cheguem à rainha e eliminem algumas colônias. Os dois sofrem com a caça e com a derrubada e a queima das matas (Mariconi, 1970, p. 86-87).

Aranhas, lagartos, lagartixas, rãs e sapos caçam formigas, inclusive as içás nos dias de revoada. O valor desses animais, em geral, é considerado insignificante, porque áreas devastadas e cultivadas não lhes são favoráveis (Mariconi, 1970, p. 87).

A conclusão do autor

Dos inimigos naturais, os importantes são as aves, especialmente os pássaros, e os besouros do gênero Canthon, que atacam a içá enquanto ela procura local para escavar o ninho (Mariconi, 1970, p. 68, 87).

Para Mariconi (1970, p. 87), a solução ideal contra as saúvas deveria incluir, além de outras medidas, a proteção e a criação intensiva de certos pássaros e, possivelmente, de insetos que atacam as içás. Na prática, a lição continua atual: conservar matas, faixas de vegetação nativa e a fauna em volta dos plantios ajuda, mas não substitui o combate.

Referências

MARICONI, F. A. M. As saúvas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1970.