MARICONI, F. A. M. As saúvas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1970.

Resumo: Descreve comportamentos dos sauveiros considerados extranormais: a luta entre colônias, que pode durar de horas a cerca de 30 dias, a mudança de sauveiros, provocada sobretudo por revolvimento do solo ou subdose de formicida, e a ocupação de sauveiros abandonados por outra colônia. Apresenta o conceito de infestação residual, criado por Autuori, e o experimento em São Carlos (SP) em que, após a eliminação de 294 sauveiros, surgiram 29 novas colônias em seis meses e 44 em um ano, justificando vistorias a cada três a seis meses.

Palavras-chave: saúva; infestação residual; mudança de sauveiro; vistoria; monitoramento; Atta.

Comportamentos "fora do normal"

Mariconi (1970, p. 75) reúne três situações que alguns consideram extranormais, embora sejam relativamente frequentes: a luta entre sauveiros, a mudança de sauveiros e a ocupação de sauveiros abandonados. As três têm consequência prática para quem faz o controle.

Luta entre sauveiros

As saúvas podem lutar entre si, e o combate pode durar de algumas horas até cerca de 30 dias seguidos. Em geral começa quando dois carreiros se encontram, e milhares de formigas podem morrer. Todas as castas de operárias participam: com frequência, operárias médias e grandes são agarradas por várias menores, que lhes cortam pernas e antenas (Autuori, 1941 apud Mariconi, 1970, p. 75).

A luta ocorre entre espécies diferentes e também entre dois formigueiros da mesma espécie, e é relativamente comum em locais muito infestados (Mariconi, 1970, p. 75).

Mudança de sauveiro

O sauveiro muda de lugar por duas razões: reação a atos do homem, como revolvimento contínuo do solo ou aplicação de formicida em dose insuficiente para matar a colônia, ou por motivos ignorados, sem interferência humana (Mariconi, 1970, p. 75).

Autuori (1941) acompanhou uma mudança completa, de 15 dias, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Escavando entre a sede antiga e o novo local, encontrou, a 1,65 m de profundidade, um canal de 15 cm de largura por 10 cm de altura pelo qual as formigas levavam ovos, larvas, pupas e fungo (Autuori, 1941 apud Mariconi, 1970, p. 75).

O próprio Mariconi registra ter observado mudança de formigueiros de saúva-limão, mata-pasto, cabeça-de-vidro e saúva-parda após aplicação de formicida (Mariconi, 1970, p. 76).

Na prática: formigueiro que "sumiu" depois de uma aplicação pode ter apenas mudado de lugar. Daí a importância da dose correta.

Ocupação de sauveiros abandonados

Quando um sauveiro se muda, o local antigo pode ser ocupado por outra colônia, às vezes muitos meses depois (Mariconi, 1970, p. 76).

O autor relata ter observado com frequência sauveiros de saúva-parda (Atta capiguara) tratados com formicida serem depois ocupados pela cabeça-de-vidro (A. laevigata). Isso levou alguns proprietários à falsa conclusão de que o formicida não havia matado o formigueiro. Ele observou também que, em alguns casos, o formigueiro de saúva-parda não estava eliminado, mas apenas enfraquecido, quando foi invadido pela cabeça-de-vidro (Mariconi, 1970, p. 76).

Na prática: antes de concluir que o produto falhou, confira se a saúva que está no monte é a mesma que foi tratada.

Infestação residual

A expressão foi criada por Autuori. Em experiências de combate por diversos métodos, ele sempre encontrava uma certa persistência da infestação, mesmo quando aparentemente todas as colônias tinham sido eliminadas (Mariconi, 1970, p. 76).

A explicação está nos formigueiros jovens. No seu primeiro período de desenvolvimento, os sauveiros não podem ser localizados com facilidade, porque ainda não têm o aglomerado típico de olheiros nem o monte característico de terra solta. O combate atinge os formigueiros visíveis, e esses jovens, espalhados entre eles, sobrevivem (Mariconi, 1970, p. 77).

O experimento de São Carlos

Para demonstrar a infestação residual, Autuori fez um amplo experimento de combate à saúva-limão no Horto Florestal da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, em São Carlos (SP). Oitenta talhões de eucalipto entraram em observação, e todos os sauveiros foram marcados com estaca na terra solta. Como o objetivo era experimental, o custo de formicida e mão de obra não foi considerado, e o combate foi meticuloso (Mariconi, 1970, p. 77).

  • Em 65 talhões, cada novo sauveiro era atacado e extinto assim que aparecia.

  • Nos outros 15, os novos sauveiros foram deixados à vontade, para medir o reaparecimento.

Momento

Sauveiros nos 15 talhões

Início: todos eliminados com formicida

294

Após 6 meses

29 novas colônias (10% da infestação inicial)

Após mais 6 meses

44 colônias (15% da infestação inicial)

Fonte: Mariconi (1970, p. 77).

A recomendação

Nas áreas em que se combate a saúva e se pretende manter baixa a infestação, é preciso percorrer o terreno periodicamente, a cada 3 a 6 meses, e eliminar as colônias à medida que forem denunciando sua localização pelo acúmulo de terra solta. Segundo o autor, esse fenômeno pode ser observado com relativa facilidade no campo, até por leigos (Mariconi, 1970, p. 77).

Em outras palavras: um único combate, por mais bem feito, não zera a área. Os formigueiros jovens que escaparam aparecem nos meses seguintes, e a vistoria periódica é parte do controle, não um extra.

Referências

MARICONI, F. A. M. As saúvas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1970.