FORTI, L. C.; BOARETTO, M. A. C. Formigas cortadeiras: biologia, ecologia, danos e controle. Botucatu: FCA-UNESP, 1997.

Resumo: Descreve a fundação da colônia de saúva, da revoada ao primeiro olheiro, e a mortalidade das rainhas nessa fase. Apresenta a divisão de trabalho entre as castas de Atta sexdens conforme a largura da cabeça, o ciclo de vida da operária de A. sexdens rubropilosa, a longevidade de rainhas e operárias, a distância de voo das içás e a população das colônias de saúva e quenquém. Registra as épocas de revoada por região do Brasil e a proporção de operárias que trabalham fora do ninho.

Palavras-chave: saúva; Atta sexdens; revoada; castas; ciclo de vida; rainha.

A revoada

Todo ano, as colônias maduras de saúva e quenquém produzem formas aladas, machos e fêmeas, que saem do ninho para fundar novas colônias. As fêmeas aladas das saúvas são chamadas de içás ou tanajuras; os machos, de bitus (Forti; Boaretto, 1997, p. 17-18).

A saída coincide com o início das chuvas e da época quente. No Sudeste e no Centro-Oeste, ocorre de setembro a dezembro; no Sul, de junho a dezembro (Forti; Boaretto, 1997, p. 18). O mapa do livro indica ainda setembro a abril no Norte e dezembro a abril na faixa leste do Nordeste (Forti; Boaretto, 1997, p. 19). Sobre as quenquéns pouco se sabe, mas algumas espécies produzem alados na mesma época das saúvas (Forti; Boaretto, 1997, p. 18).

A fundação: dez horas e três meses fechada

A içá é fecundada no voo por 3 a 8 machos, desce ao solo e retira as asas. O macho morre. A rainha perfura o solo e constrói uma câmara inicial hemisférica, ligada à superfície por um canal de 8 a 25 cm de profundidade, que ela mesma veda com terra. A fundação leva cerca de 10 horas (Forti; Boaretto, 1997, p. 18).

Antes de deixar a colônia-mãe, a içá guarda uma pelota de fungo numa cavidade da boca, a cavidade infrabucal. Cerca de 48 horas depois de iniciada a fundação, ela deposita essa pelota no chão da câmara e passa a cultivá-la com as próprias fezes e secreções (Forti; Boaretto, 1997, p. 18).

A rainha fica fechada de 80 a 100 dias. Nesse tempo põe ovos grandes, de alimentação, que nutrem as larvas, e ovos pequenos, que dão origem às primeiras operárias. Depois desse período, as operárias desobstruem o canal e saem para cortar plantas. O segundo olheiro só é aberto cerca de 421 dias após a fundação; a partir daí o sauveiro se expande rapidamente (Forti; Boaretto, 1997, p. 18-21).

Quase todas as rainhas morrem

A mortalidade das colônias novas às vezes chega a 100%. Em A. sexdens rubropilosa, os autores registram mortalidade de 99,5% e afirmam que apenas 0,05% das içás produzidas por uma colônia chegam a formar colônias adultas (Forti; Boaretto, 1997, p. 21). Os dois números não batem entre si; o segundo é coerente com o capítulo de controle, que atribui às condições ambientais a eliminação de 99,95% das rainhas antes mesmo de fundarem o ninho (Forti; Boaretto, 1997, p. 36). Em qualquer das leituras, menos de 1 em cada 100 içás vinga.

Os pássaros pesam muito nessa conta. Estimou-se que eles predam cerca de 3.900 das 7.500 rainhas de A. cephalotes produzidas por uma colônia (Forti; Boaretto, 1997, p. 25).

Quem faz o quê dentro da colônia

A colônia tem castas permanentes, a rainha e as operárias, que são fêmeas estéreis, e castas temporárias, os alados. A rainha põe ovos de operárias o ano todo e, só num período do ano, ovos de novas rainhas e machos. As içás são produzidas em número menor que os machos (Forti; Boaretto, 1997, p. 21-23).

O tamanho de cada indivíduo está ligado à função que exerce, e a idade também influi (Forti; Boaretto, 1997, p. 21):

Largura da cabeça

Casta

Tarefas mais comuns

1,0 mm

Jardineiras ou enfermeiras (corpo de até 2 mm)

Cuidam do jardim de fungo, incorporam vegetais, inoculam hifas, limpam e alimentam outros indivíduos

1,4 mm

Generalistas (médias pequenas)

Cortam vegetais dentro do ninho, cuidam da rainha e levam o vegetal esgotado às câmaras de lixo

2,2 mm

Forrageiras e escavadoras (médias grandes)

Escoteiras, recrutam outras formigas, cortam e transportam vegetais, escavam o ninho

Mais de 3,0 mm

Soldados

Defendem o ninho

2,9 mm

Machos (bitus)

Fecundam a rainha

5,2 mm

Rainhas (içás, tanajuras)

Fundam colônias e põem ovos

Fonte: adaptado de Forti e Boaretto (1997, p. 22).

Na prática, as operárias médias cortam e carregam a folha; as menores, com as generalistas, picam a folha em pedacinhos, colocam na esponja de fungo e inoculam o micélio (Forti; Boaretto, 1997, p. 23).

Quanto vive cada uma

Fase da operária de A. sexdens rubropilosa

Duração (dias)

Incubação dos ovos

25

Período larval

22

Período pupal

10

Longevidade máxima da cortadeira

120

Longevidade máxima do soldado

390

Fonte: Forti e Boaretto (1997, p. 25).

O ciclo de ovo a adulto é de aproximadamente 55 dias, e as primeiras operárias adultas surgem cerca de 66 dias após a fundação (Forti; Boaretto, 1997, p. 23).

A rainha vive muito mais. As de A. sexdens rubropilosa vivem cerca de 20 a 22 anos; colônias de outras saúvas têm expectativa média de 10 anos no campo. Em laboratório, Acromyrmex niger viveu até 7 anos e A. octospinosus, 10. Depois do voo, a rainha pode guardar mais de 300 milhões de espermatozoides na espermateca (Forti; Boaretto, 1997, p. 25).

Voo, densidade de rainhas e escolha do local

As içás voam longe: A. texana chega a 10,5 km, A. cephalotes a 9,6 km e A. sexdens rubropilosa a 11 km. A densidade de rainhas de A. sexdens rubropilosa chega a 300 a 800 por hectare. Observações sem dados conclusivos indicam que elas procuram solo nu, como áreas recém-aradas e margens de estradas sem vegetação (Forti; Boaretto, 1997, p. 25).

O tamanho da população

Uma colônia adulta de A. vollenweideri tem cerca de 7 milhões de operárias; a de A. laevigata, 3,5 milhões. As quenquéns são menos populosas, chegando a 270 mil operárias em Acromyrmex crassispinus (Forti; Boaretto, 1997, p. 25-26).

Só uma pequena parte dessa população trabalha fora. Numa colônia de A. sexdens rubropilosa, as operárias ativas nas trilhas variam de 8.000 a 40.000, e grosseiramente apenas 10% das operárias são cortadeiras, carregadeiras ou escoteiras (Forti; Boaretto, 1997, p. 26). É essa fração que leva a isca para dentro do ninho.

Referências

FORTI, L. C.; BOARETTO, M. A. C. Formigas cortadeiras: biologia, ecologia, danos e controle. Botucatu: FCA-UNESP, 1997.