Resumo técnico elaborado a partir de "As Saúvas", de F. A. M. Mariconi (Ceres, 1970).
De cada 6.000 içás que saem numa revoada, 3 chegam a formar formigueiro adulto. Entender por que a taxa é tão baixa — e em que momento ela é decidida — muda a forma de encarar o controle.
Quando acontece a revoada
Em São Paulo e regiões vizinhas, a revoada ocorre de setembro a novembro, em dias encobertos, ventosos e às vezes frios.
No restante do país, o calendário muda bastante. Segundo o levantamento de Rêgo & Brandão Filho citado por Mariconi:
| Região | Época da revoada |
|---|---|
| Amazonas e Acre | setembro a janeiro |
| Pará, Maranhão e Piauí | outubro a janeiro |
| Ceará | dezembro a fevereiro |
| Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco | janeiro a março |
| Alagoas e Sergipe | fevereiro a abril |
| Bahia e Espírito Santo | outubro a dezembro |
| Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná | setembro a outubro |
| Santa Catarina e Rio Grande do Sul | junho a setembro |
O que acontece depois do voo
Os machos — os bitus — não perdem as asas e morrem no mesmo dia do voo. A içá fecundada volta ao solo, desprende as próprias asas e procura um local livre ou quase livre de vegetação para começar a escavar.
Ela abre um canal reto, vertical ou levemente inclinado, de 8,5 a 15 cm de profundidade e 9 a 12 mm de diâmetro. No fim dele constrói a primeira panela, hemisférica, de paredes lisas, medindo 18 a 25 mm de altura e 27 a 40 mm de diâmetro.
Terminada a câmara, a içá usa a própria terra escavada para fechar o canal de entrada por completo — às vezes tampando já a partir de alguns centímetros abaixo da superfície. Ela se tranca lá dentro.
O fungo: a bagagem que ela trouxe
Cerca de 48 horas depois de começar a perfuração, a içá regurgita a porção inicial de fungo — a "semente" que trouxe na cavidade bucal do formigueiro materno.
Essa porção é constantemente lambida e revolvida entre as peças bucais. Em seguida, a içá a leva até a extremidade do abdome para receber uma gota de líquido fecal, menor que 1 mm, que o fungo absorve. É a adubação.
Ao quarto ou quinto dia já se notam os primeiros filamentos. Com mais filamentos, a massa ganha aspecto de um minúsculo ouriço, e a içá a divide em duas, três ou mais porções, tratando cada uma separadamente.
Trinta dias após a penetração no solo, a cultura mede cerca de 20 mm de diâmetro: as porções já se uniram num conjunto circular no chão da panela, com os ovos e larvas na depressão central.
Os primeiros 75 dias: a rainha faz tudo sozinha
Nesse período a içá acumula todas as funções da colônia:
- Cuida do fungo — adubação, divisão e separação das porções.
- Limpa a si própria — antenas, tarsos e várias regiões do corpo, demorada e frequentemente. Algumas áreas ela não alcança, como o dorso do tórax; só depois que nascem as primeiras operárias essa parte é limpa.
- Alimenta a si e à prole — por meio dos "ovos de alimentação", maiores que os normais e de casca mole. Como as larvas não se locomovem, a rainha leva o ovo até o alcance das peças bucais delas.
- Desova — nos primeiros 70 a 80 dias ela põe tanto os ovos normais quanto os de alimentação.
- Cuida de larvas e pupas — segurando-as com as pontas das mandíbulas e recolocando-as sobre o fungo.
Depois dessa fase, com as primeiras operárias trabalhando, a atividade da rainha diminui bastante.
A colônia demora muito a aparecer
Este é o ponto que mais engana quem procura formigueiro em campo. O acompanhamento de 12 sauveiros mostrou que:
- O primeiro olheiro abre cerca de 90 dias após a içá penetrar no solo.
- O segundo olheiro só aparece cerca de 14 meses depois do primeiro — ou seja, 17 meses após a fundação.
- Daí em diante acelera: do terceiro ao décimo olheiro, em média 82 dias. O décimo abre por volta dos 20 meses.
Mariconi é direto sobre isso: um sauveiro de 2 anos é muito menor do que geralmente se acredita. Mas dessa idade em diante o crescimento dispara.
- 2 anos — cerca de 120 olheiros abertos
- 3 anos — cerca de 1.000 olheiros abertos
- 38 meses — o formigueiro se torna adulto e produz a primeira revoada
Vale notar que muitos desses olheiros são abandonados ou fechados com terra. Num sauveiro bem desenvolvido, o que se percebe de fora costuma ser pouco mais de 100 olheiros abertos.
De 6.000 içás, 3 vingam
O cálculo apresentado no livro, a partir dos trabalhos de Autuori, parte de dois formigueiros adultos que liberam 6.000 içás numa revoada:
- 5.850 morrem nos primeiros 90 a 100 dias
- 147 morrem nos 12 meses seguintes, do 4º ao 15º mês
- 3 chegam a formar sauveiros adultos
Sobrevivência final: 0,05%.
As quatro fases críticas
Autuori identificou onde essa mortalidade se concentra:
1. O voo nupcial — da saída na superfície do formigueiro materno até a volta ao solo. Dura de 30 a 60 minutos. Muitas içás são capturadas por aves; o pardal é um dos principais.
2. A escavação do sauveiro inicial — de 6 a 8 horas. Além das aves, atacam sapos, lagartos e besouros do gênero Canthon, que pegam a içá enquanto ela procura local para escavar.
3. O isolamento na panela — de 80 a 100 dias. Aqui os inimigos são principalmente climáticos. Como o ninho é superficial, chuva prolongada afoga a rainha e estiagem excepcional resseca a panela e mata o fungo. Em muitos casos o fungo morre e a içá sobrevive por um tempo, mas acaba morrendo também.
4. Do primeiro olheiro à segunda panela — cerca de 15 meses. O sauveiro inicial tem pouquíssimas operárias para se defender, e formigas dos gêneros Solenopsis, Paratrechina e Eciton entram pelo olheiro número um. Saúvas de colônias fortes também atacam: roubam as formas jovens e toda a cultura de fungo, e matam a içá.
O que isso significa na prática
Duas conclusões do livro têm consequência direta no manejo.
A primeira é sobre preparo de solo. Mariconi afirma que aração e gradeação eliminam muitos sauveirinhos — e que é por isso que terrenos preparados para cultivo após a revoada apresentam menos formigueiros que terrenos não revolvidos. O ninho inicial é superficial e não resiste ao revolvimento.
A segunda é mais polêmica: como 99,95% das içás não chegam a formar colônia adulta, o autor considera inútil o combate às içás durante e logo após o voo nupcial, e também aos sauveirinhos em fase inicial.
Fonte
MARICONI, F. A. M. As Saúvas. Os dados de escavação, acompanhamento de colônias e mortalidade são de trabalhos de M. Autuori reunidos nessa obra. Trata-se de literatura clássica; práticas de manejo evoluíram desde então.