FORTI, L. C.; BOARETTO, M. A. C. Formigas cortadeiras: biologia, ecologia, danos e controle. Botucatu: FCA-UNESP, 1997.

Resumo: Trata do comportamento de forrageamento das formigas cortadeiras, da densidade de colônias por hectare e da arquitetura do ninho. Descreve o horário de atividade, o comprimento das trilhas, o feromônio de trilha, as preferências de corte e o uso da folha como substrato para o fungo. Apresenta dados de escavação de colônias de saúva-limão, cabeça-de-vidro e saúva-parda, a distribuição do substrato entre as câmaras, os tipos de murundu e a época de deposição de terra, e relaciona essas informações com o controle por isca.

Palavras-chave: saúva; forrageamento; trilha; murundu; câmaras; densidade de colônias.

Quando as formigas trabalham

Saúvas e quenquéns normalmente são ativas à noite. Em locais sombreados, o corte e o transporte de folhas podem acontecer durante o dia, e no inverno as cortadeiras são ativas apenas no período diurno (Forti; Boaretto, 1997, p. 26).

Trilhas

A maioria das cortadeiras em plantios florestais faz trilhas, os carreiros. As de saúva chegam a 70 m de comprimento e 20 cm de largura; as de quenquém são mais curtas e estreitas. Na saúva-limão, as trilhas medidas variaram de 1,0 a 34,0 m, e às vezes A. sexdens rubropilosa nem faz trilha longa, ou não faz trilha alguma (Forti; Boaretto, 1997, p. 26-27).

Há fortes evidências de que a entrada de folhas na colônia está correlacionada com o comprimento e a largura da trilha (Forti; Boaretto, 1997, p. 27).

As formigas marcam o caminho com um feromônio produzido por uma glândula na ponta do abdome. Houve tentativas de colocar essa substância nas iscas para aumentar a atratividade, sem sucesso (Forti; Boaretto, 1997, p. 27).

O princípio da isca

A operária sai, sobe na planta, corta o fragmento, desce e leva para o ninho. Em A. sexdens rubropilosa, algumas cortam e deixam a folha cair, e outras fazem o transporte (Forti; Boaretto, 1997, p. 27).

Uma vez conduzidas a uma fonte de alimento, as formigas só mudam de objetivo se encontrarem algo mais atrativo. Esse é o princípio das iscas formicidas: a polpa cítrica atrai fortemente as cortadeiras, mas também outras formigas e muitos outros animais (Forti; Boaretto, 1997, p. 27).

O que elas preferem cortar

As cortadeiras atacam muitas espécies de plantas, mas são seletivas. Alguns pesquisadores sugerem que as plantas introduzidas são preferidas às nativas. Folhas jovens e flores são o material predileto, mas também cortam folhas maduras e secas, de preferência caídas no chão, e carregam fezes de animais, papéis, sementes e plásticos (Forti; Boaretto, 1997, p. 27-28).

A preferência muda entre colônias e ao longo do tempo: uma planta preferida por uma colônia pode deixar de sê-lo dias depois. Os autores atribuem isso a substâncias das plantas tóxicas ao fungo ou repelentes à formiga. As plantas introduzidas geralmente têm pouco dessas substâncias, o que as torna mais suscetíveis (Forti; Boaretto, 1997, p. 28).

A folha não é comida

As formigas não se alimentam das folhas. A folha é substrato para o fungo que elas cultivam e do qual se alimentam. Dentro do ninho, a folha é cortada em pedaços bem pequenos, lambida e inoculada com o fungo. Os autores comparam com uma horta: a folha faz o papel do esterco, e o fungo é a planta cultivada (Forti; Boaretto, 1997, p. 28).

Ao lamber os pedaços, as operárias ingerem partículas vegetais e seiva. Com a isca fazem o mesmo: lambem os grânulos e ingerem pequenas partículas com inseticida (Forti; Boaretto, 1997, p. 28).

Uma colônia tem de 2 a 14 orifícios de transporte de folhas em atividade, mas não todos ao mesmo tempo; a média é de 5 olheiros ativos por período (Forti; Boaretto, 1997, p. 28-30).

Quantas colônias por hectare

A densidade varia muito com o habitat. A. sexdens rubropilosa ocorre em densidades de 0,5 a 5 colônias/ha, e a quenquém Acromyrmex crassispinus, de 0,3 a 2,4 colônias/ha; em plantios de eucalipto, porém, foram observadas 200 colônias/ha (Forti; Boaretto, 1997, p. 26).

Via de regra, a densidade é maior em áreas cultivadas que em florestas naturais. Na Jari Florestal e Agropecuária, a mata nativa tinha de 1 a 18 sauveiros/ha, e os plantios estabelecidos, de 2 a 30 sauveiros/ha. A distribuição das colônias de saúva-limão é regular ou casual e pode ser influenciada pela disposição de estradas e carreadores (Forti; Boaretto, 1997, p. 26).

O ninho por dentro

As colônias de Atta são as maiores entre os insetos sociais. O ninho é um conjunto de câmaras, as panelas, ligadas por túneis. Nas câmaras ficam o fungo, os ovos, larvas, pupas, operárias, a rainha e, na época, os alados (Forti; Boaretto, 1997, p. 31).

Colônia escavada

Câmaras com fungo

Vazias

Lixo e terra

Total

Saúva-limão, 77 meses

248

1.219

296 de lixo e 157 de terra

1.920

Cabeça-de-vidro (A. laevigata)

5.849

889

426

7.164

Saúva-parda madura (A. capiguara)

cerca de 100

—

cerca de 10 de lixo

—

Fonte: Forti e Boaretto (1997, p. 30).

Em solo arenoso, as câmaras podem ficar a mais de 6 m de profundidade. Na saúva-limão e na cabeça-de-vidro, as câmaras ficam praticamente na projeção da terra solta. Na saúva-parda, comum em pastagens, só as câmaras de lixo ficam sob o murundu (Forti; Boaretto, 1997, p. 30).

A isca chega a todas as panelas?

Pesquisadores marcaram iscas granuladas com iodo e fósforo radioativos e encontraram os grânulos em câmaras de diferentes profundidades numa colônia de saúva-limão (Forti; Boaretto, 1997, p. 30-31).

Mais recentemente, dois pesquisadores verificaram que o substrato não é distribuído igualmente entre as câmaras, mas por setores, e recomendaram, para a saúva-limão, tratar o maior número possível de canais de alimentação. Logo em seguida, porém, o livro registra que essa distribuição setorial não foi constatada em colônias de A. capiguara, A. sexdens rubropilosa e A. laevigata (Forti; Boaretto, 1997, p. 31). Os resultados, portanto, divergem. Na dúvida, distribuir a isca pelo maior número de olheiros ativos é a opção mais segura.

O que se vê por fora

Por fora, o formigueiro aparece pela terra escavada, o murundu, e pelas trilhas e canais de abastecimento. Na saúva-limão, o murundu é de terra solta; na cabeça-de-vidro, é convexo, com terra espalhada que parece compactada, às vezes coberto de vegetação e com orifícios de entrada de folhas (Forti; Boaretto, 1997, p. 31).

A terra do murundu vem do subsolo, por canais de aterro; alguns pesquisadores acreditam que esses canais também ventilam a colônia. A saúva-limão, a cabeça-de-vidro e a saúva-parda têm túneis longos. Na saúva-limão, eles formam uma rede sob o solo, e apenas 3 a 4 túneis largos convergem para a colônia; na cabeça-de-vidro, os túneis que convergem são poucos, mas chegam a 40 cm de largura por 2,5 cm de altura (Forti; Boaretto, 1997, p. 34).

Terra parada não quer dizer formigueiro morto

A deposição de terra não é contínua. Ela se intensifica nos meses que antecedem a revoada, e de dezembro a abril a colônia praticamente não deposita terra. Nesse período fica muito difícil saber se o formigueiro está vivo ou morto, o que confunde o monitoramento de experimentos de controle (Forti; Boaretto, 1997, p. 34).

Colônias jovens depositam pouca terra; no segundo e no terceiro ano a deposição é mais acentuada e constante ao longo do ano (Forti; Boaretto, 1997, p. 34).

Referências

FORTI, L. C.; BOARETTO, M. A. C. Formigas cortadeiras: biologia, ecologia, danos e controle. Botucatu: FCA-UNESP, 1997.