MARICONI, F. A. M. As saúvas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1970.
Resumo: Apresenta o método de combate aos sauveiros recomendado em 1970, exceto para a saúva-parda. Descreve a limpeza do sauveiro, a remoção da terra solta, a medição da área e a aplicação do sauvicida, a escala de dificuldade entre espécies, a época de aplicação conforme o tipo de produto, a escolha dos olheiros, o repasse entre 80 e 100 dias e as principais causas de insucesso. Os produtos citados na obra estão proibidos no Brasil; o texto tem caráter histórico e informativo.
Palavras-chave: saúva; combate; medição do sauveiro; repasse; época de aplicação; histórico.
Atenção: conteúdo histórico. Este artigo resume como se combatia a saúva em 1970. Os produtos usados na época (aldrin, heptacloro, clordane, dodecacloro/Mirex, brometo de metila e bissulfeto de carbono) estão proibidos no Brasil e não devem ser usados. As doses do livro foram omitidas de propósito. Para controlar formigas hoje, use apenas produtos registrados no Agrofit, siga a bula e a receita agronômica.
As quatro etapas do combate
Para todas as saúvas, exceto a saúva-parda (Atta capiguara), que o autor trata à parte, o combate seguia quatro etapas: limpeza do sauveiro, remoção da terra solta, medição do sauveiro e aplicação do sauvicida (Mariconi, 1970, p. 136).
Limpeza: cortavam-se arbustos e outras plantas sobre o monte de terra solta, com foice, enxada, enxadão ou facão, e retiravam-se as pedras quando eram muitas. Nem sempre era necessária (Mariconi, 1970, p. 136).
Remoção da terra solta: a terra solta de cima do sauveiro era puxada para a periferia, sobre terreno firme. Era um trabalho árduo, lento e caro, e quase sempre total. Com iscas granuladas ou aparelho motorizado para pó, não se fazia a remoção (Mariconi, 1970, p. 136).
Medição: media-se o maior comprimento do formigueiro em passadas de cerca de 1 m e, depois, a maior largura. A multiplicação das duas medidas dava a área do sauveiro (Mariconi, 1970, p. 136-137).
Aplicação: feita 1 ou 2 dias depois da remoção da terra, para que as formigas reabrissem os canais obstruídos. Em tempo muito frio, porém, elas podiam fechar olheiros e estreitar canais, o que tornava a limpeza contraproducente (Mariconi, 1970, p. 137).
A medição da área de terra solta, com o maior comprimento vezes a maior largura, continua sendo a base do cálculo de dose das iscas atuais.
Nem toda saúva é igual de difícil
Em São Paulo, a escala crescente de dificuldade para matar as colônias era: saúva-mata-pasto, saúva-de-vidro, saúva-limão e saúva-parda. A mata-pasto era a mais fácil, e a parda, a mais difícil (Mariconi, 1970, p. 138).
O autor recomendava, para a mata-pasto, de 20% a 30% menos formicida que para a saúva-limão. Para a limão e a saúva-de-vidro com monte de terra solta acima de 80 cm de altura, recomendava de 20% a 30% a mais (Mariconi, 1970, p. 138).
Época certa para cada tipo de produto
A época dependia do estado físico do produto (Mariconi, 1970, p. 139-140):
Gases e líquidos: de novembro a abril ou maio, em São Paulo e estados vizinhos, com o solo molhado. Quanto mais seca a terra, menor a eficiência. A umidade que importava não era a da superfície, e sim a de meio metro de profundidade para baixo.
Pós: de abril ou maio a outubro ou novembro, com a terra bem seca até cerca de 70 cm (argilosa) a 100 cm (arenosa). Em terra úmida, o pó gruda nas paredes dos canais e não penetra. No frio intenso, o combate ficava muito difícil, porque as formigas fechavam muitos canais.
Iscas: nos carreiros, de preferência perto dos olheiros, com os primeiros centímetros do solo bem secos, depois das 15 h. Não se usavam em dias muito frios nem com risco de forte nevoeiro.
Na época, a isca considerada mais eficaz tinha como base o dodecacloro (Mirex), hoje proibido no Brasil (Mariconi, 1970, p. 140).
Como escolher os olheiros
De um a dois dias após a remoção da terra, escolhiam-se os olheiros para a aplicação, sempre na região da terra solta. Os "bons" eram aqueles cujos canais descem ou são pouco inclinados. O olheiro cujo canal corre quase paralelo à superfície, ou que "foge" do centro do formigueiro, devia ser recusado. Para conferir, introduzia-se no canal o caule verde e flexível de uma planta (Mariconi, 1970, p. 140).
Não vale a pena combater o sauveirinho
Como cerca de 99,95% dos sauveiros pequenos desaparecem até o fim de 15 meses por causas naturais, o autor considerava desperdício de tempo e dinheiro combater as içás em revoada ou os sauveiros iniciais. O combate devia se dirigir só às colônias com dois ou mais olheiros (Mariconi, 1970, p. 141).
Repasse: 80 a 100 dias, não 30
As empresas de formicidas recomendavam o repasse de 30 a 40 dias após a aplicação. Pelas observações do autor, o repasse devia ser feito de 80 a 100 dias depois: alguns olheiros ativos 20 a 70 dias após a aplicação ainda podem desaparecer com a morte da içá, enquanto olheiros vivos depois de cerca de 80 dias indicam que o sauveiro não foi extinto (Mariconi, 1970, p. 141).
O recado do autor é que o combate deve ser feito com capricho, para evitar o repasse; e, quando ele for necessário, deve ser repetido com muito zelo (Mariconi, 1970, p. 141).
Sauveiros "amuados"
Nos sauveiros amuados, as recomendações anteriores não se aplicam, porque muitas vezes é impossível ou muito difícil saber onde estão as panelas. Nesses casos, o autor indicava o uso de sonda e de grandes quantidades de formicida; sem a sonda, aplicava-se em todos os olheiros, e mesmo assim a morte do sauveiro não era garantida (Mariconi, 1970, p. 141).
Por que o combate falha
Segundo o autor, as causas mais comuns de insucesso eram (Mariconi, 1970, p. 141-142):
formicida ineficaz, alterado ou aplicado em dose menor que a necessária;
aplicação fora da época apropriada ou em olheiros que não eram "bons";
parte do sauveiro sem receber o veneno, mesmo na época e no local certos, por causa da profundidade de algumas panelas e da estrutura interna. Nem sempre todas as panelas ficam sob a terra solta; se a rainha estiver numa câmara não atingida, o formigueiro pode voltar no mesmo lugar ou perto (Mariconi; Paiva Castro, 1960a apud Mariconi, 1970, p. 142).
As dificuldades das campanhas
Nas campanhas de combate organizadas por fazendeiros ou grupos de fazendeiros, os resultados ficavam muitas vezes abaixo do esperado. As dificuldades apontadas eram o custo dos produtos e aparelhos, a falta de pessoal treinado, a falta de instruções, a falta de apoio do governo, o desinteresse de parte dos lavradores e a falta de união entre eles (Lisboa, 1948 apud Mariconi, 1970, p. 142).
Mais de meio século depois, a lista continua familiar: formiga não respeita cerca, e o combate isolado de um vizinho perde força quando o outro não faz.
O que continua valendo
Os produtos mudaram, mas vários princípios do capítulo continuam úteis: medir a área de terra solta, respeitar a época e a umidade do solo, escolher bem o ponto de aplicação, fazer o repasse no prazo certo e entender que nem toda panela fica embaixo do monte de terra. Para a escolha do produto e da dose, valem apenas a bula e a receita agronômica.
Referências
MARICONI, F. A. M. As saúvas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1970.