MARICONI, F. A. M. As saúvas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1970.

Resumo: Descreve as castas da saúva, a longevidade das operárias e da rainha e o destino do sauveiro após a morte da içá, segundo Mariconi. Distingue castas permanentes, rainha e operárias jardineiras, cortadeiras e soldados, e temporárias, içás e bitus, com o tamanho de cada uma. Registra a diferença entre o fungo da saúva-limão e o da mata-pasto, a composição química do lixo das panelas, a sobrevivência de uma rainha por 15 anos em laboratório e os experimentos de troca de rainhas, concluindo que, morta a rainha, o sauveiro morre.

Palavras-chave: saúva; castas; rainha; longevidade; fungo; Atta.

O que define uma saúva

Saúvas são insetos sociais do gênero Atta que vivem em formigueiros subterrâneos com numerosas câmaras e galerias, cortam plantas, levam o material para dentro e vivem à custa de um fungo que cultivam. Na superfície, o sauveiro apresenta monte de terra solta e orifícios chamados olheiros. As câmaras são as panelas, e as galerias, os canais (Mariconi, 1970, p. 20).

O material vegetal não é usado como alimento, e sim como substrato para o fungo. Mariconi et al. (1963) verificaram que o fungo da saúva-limão é diferente do da mata-pasto, e o autor considera grande a possibilidade de que cada espécie de saúva cultive um fungo diferente (Mariconi et al., 1963 apud Mariconi, 1970, p. 20).

As castas

As formigas se dividem em castas, caracterizadas principalmente pelo tamanho (Mariconi, 1970, p. 21):

Tipo

Casta

Outros nomes

Permanente

Fêmea sem asas, fundadora do sauveiro

Içá, tanajura, rainha

Permanente

Operárias menores

Jardineiras, cultivadeiras

Permanente

Operárias médias

Cortadeiras, carregadeiras

Permanente

Operárias grandes

Soldados, cabeçudas

Temporária

De centenas a alguns milhares de fêmeas aladas

Içás, tanajuras

Temporária

Milhares de machos alados

Bitus, içá-bitus

Fonte: Mariconi (1970, p. 21).

O sauveiro é fundado e povoado por uma única fêmea (Mariconi, 1970, p. 22).

Quem corta, quem carrega, quem defende

Em geral, as que cortam são as que carregam. Mais raramente, as formigas que cortam deixam as folhas cair de plantas altas, caindo junto com os pedaços; no chão, outras levam o material ao sauveiro (Mariconi, 1970, p. 24).

Os soldados têm como função a defesa. Mas, em adversidade, como em sauveiros atacados por formicidas, os soldados sobreviventes podem ajudar no corte e no transporte de folhas (Mariconi et al., 1963 apud Mariconi, 1970, p. 24).

Tamanhos

  • Jardineiras: podem medir apenas 2 mm.

  • Médias: de 4 a 7 mm, aproximadamente.

  • Soldados: 11 mm; numa espécie, chegam a 17 mm.

  • Içás: grandes e volumosas, de 20 a 25 mm.

Fonte: Mariconi (1970, p. 25).

As operárias têm 6 espinhos dorsais no tórax, característica que as distingue de qualquer outro gênero de formiga brasileira. A separação das espécies é bem mais fácil examinando os soldados (Mariconi, 1970, p. 25).

O autor registra ainda que, no sertão e às vezes nas cidades, os abdomes das içás são comidos fritos, assados, torrados ou em paçoca com farinha de mandioca (Mariconi, 1970, p. 25).

Os canais e as panelas

Das panelas saem canais curtos, de pequeno calibre, que se comunicam com outros de grande diâmetro; estes se abrem, direta ou indiretamente, nos olheiros. As panelas, portanto, não estão diretamente ligadas ao exterior. Na cabeça-de-vidro, o canal de pequeno calibre pode sair do teto da panela; nas demais espécies, sai da base ou da parede lateral, perto da base (Paiva Castro; Zamith; Mariconi, 1961 apud Mariconi, 1970, p. 32).

A profundidade impressiona. Numa sede aparente de saúva-parda, uma panela vazia media 1,25 m de altura, com o teto a 1,80 m da superfície; uma panela de lixo media 2,95 m de altura, com o teto a apenas 1 m do solo. Numa escavação parcial de cabeça-de-vidro em eucaliptal, em Botucatu, o sauveiro ia além de 4 m (Mariconi, 1970, p. 33, 35-36).

O que tem no lixo

Vernalha e Carneiro (1954) analisaram o lixo de um sauveiro de saúva-limão criado em laboratório com folhas de roseira (Vernalha; Carneiro, 1954 apud Mariconi, 1970, p. 33):

Componente

Teor

Proteínas

35,87%

Celulose

17,73%

Umidade

14,33%

Cinzas

11,25%

Óxido de potássio

3,66%

Óxido de alumínio

2,31%

Óxido de cálcio

1,86%

Gorduras

1,48%

Fonte: Vernalha e Carneiro (1954 apud Mariconi, 1970, p. 33).

Quanto vive cada uma

O tempo de vida das operárias não era conhecido com segurança. As observações de campo do autor indicavam até cerca de 4 meses, exceto na saúva-parda, que talvez chegue a 6 meses (Mariconi, 1970, p. 33).

A rainha vive muito mais. Autuori (1950c) manteve em laboratório uma colônia de saúva-limão por 15 anos e 7 meses: a rainha viveu 15 anos e 4 meses, e a colônia sobreviveu mais 3 meses depois da morte dela. Manter içás vivas em laboratório por 5, 7 e até 10 anos não é raro (Autuori, 1950c apud Mariconi, 1970, p. 34).

Morta a rainha, morre o sauveiro?

Vários indícios dizem que sim: as operárias vão morrendo aos poucos e, sem fonte de ovos, a colônia se extingue. Em Piracicaba, sauveiros de saúva-limão e mata-pasto escavados até a retirada da rainha foram depois mantidos em observação até se extinguirem (Mariconi, 1970, p. 34).

Há indícios em contrário. Sousa (1946) viu, em dia de revoada, um sauveiro atacado várias vezes e sem alados próprios capturar içás de outros formigueiros, cortar-lhes as asas e introduzi-las à força no ninho (Sousa, 1946 apud Mariconi, 1970, p. 34). Mariconi, que nunca constatou o fato, pergunta se seria uma tentativa de forçar uma das içás capturadas a ser a nova rainha (Mariconi, 1970, p. 34). Em laboratório, Mariconi et al. (1963) conseguiram substituir rainhas de pequenas colônias por prazos de 7 a cerca de 60 dias, inclusive entre espécies: colônias de saúva-parda aceitaram rainha de saúva-limão e, depois, de mata-pasto (Mariconi et al., 1963 apud Mariconi, 1970, p. 34-35).

A conclusão do autor: a questão continuava em aberto, mas o pensamento geral, inclusive o dele, era de que, morrendo a rainha, o sauveiro morre (Mariconi, 1970, p. 35).

Por que isso importa

Todo método de controle tem um alvo final: a rainha. Ela vive muitos anos, fica nas panelas profundas e, segundo o autor, provavelmente não é substituída na natureza (Mariconi, 1970, p. 156). Enquanto estiver viva, o sauveiro se recompõe; morta, a colônia definha.

Referências

MARICONI, F. A. M. As saúvas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1970.