MARICONI, F. A. M. As saúvas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1970.

Resumo: Situa as saúvas na classificação das formigas e apresenta a lista e a distribuição das saúvas brasileiras segundo Mariconi. Registra 1.015 espécies de formigas no Brasil, em 7 subfamílias, e a posição das cortadeiras entre as Myrmicinae cultivadoras de fungo. Lista as 11 saúvas brasileiras, 9 espécies, uma delas com 3 subespécies, com nome popular e estados de ocorrência, as espécies presentes em cada estado e as cinco saúvas de São Paulo. Indica, por fim, que a saúva mais importante varia com a espécie mais frequente e a cultura dominante na região.

Palavras-chave: saúva; Atta; classificação; distribuição geográfica; Myrmicinae; quenquém.

Onde a saúva se encaixa

Todas as formigas pertencem à família Formicidae. Vivem em sociedades com fêmeas fecundas, machos e operárias; as operárias nunca têm asas, e fêmeas e machos perdem as asas logo após o voo nupcial. O caráter que distingue as formigas é o pecíolo, de 1 ou 2 segmentos, que liga o abdome ao tórax (Mariconi, 1970, p. 9).

A maioria das formigas se alimenta de sucos vegetais, néctar, substâncias açucaradas excretadas por pulgões, insetos mortos e carne. As cortadeiras, saúvas e quenquéns, alimentam-se exclusivamente do fungo que cultivam em câmaras dentro do ninho, sobre os pedaços de folha que cortam (Mariconi, 1970, p. 10). Por isso o autor observa que elas não são propriamente fitófagas, e sim micófagas, comedoras de fungo (Mariconi, 1970, p. 8).

Quantas formigas há no Brasil

Pelos dados de Kempf (1964d), o Brasil tinha 1.015 espécies de formigas descritas, em 107 gêneros e 7 subfamílias (Kempf, 1964d apud Mariconi, 1970, p. 10-11). Apesar de o grupo não ser tão numeroso, o autor destaca que, do ponto de vista agrícola, é o que abrange os insetos que mais danos causam à agricultura brasileira (Mariconi, 1970, p. 10).

Região

Gêneros

Espécies

Região Neotropical

145

2.162

Brasil

107

1.015

Estado de São Paulo

88

459

Fonte: Kempf (1964d apud Mariconi, 1970, p. 11).

A subfamília Myrmicinae é a maior, com 447 espécies no Brasil (Kempf, 1964d apud Mariconi, 1970, p. 11).

Cortadeiras e outras cultivadoras de fungo

A Myrmicinae é o principal grupo de formigas brasileiras, porque inclui as cortadeiras. Mariconi (1970, p. 15) propõe uma divisão de interesse prático:

  • Cultivadoras e comedoras de fungo que não cortam folhas: Apterostigma e Cyphomyrmex.

  • Cultivadoras e comedoras de fungo que cortam folhas: Atta (saúvas) e Acromyrmex (quenquéns).

  • Não cultivadoras de fungo: Pheidole, Crematogaster, Solenopsis (lava-pés) e Monomorium.

Ao gênero Atta pertencem todas as saúvas. As quenquéns, do gênero Acromyrmex, chegam a ser, em algumas regiões, problema agrícola maior que as próprias saúvas. Pela lista de Gonçalves (1961, 1967b), o Brasil tinha 18 espécies de quenquém, que chegam a 26 contando as subespécies (Gonçalves, 1961, 1967b apud Mariconi, 1970, p. 16-17).

As 11 saúvas do Brasil

Das saúvas das Américas, 5 espécies não tinham sido registradas no Brasil, e outras 5 só eram conhecidas aqui (Mariconi, 1970, p. 40). A lista brasileira tem 9 espécies, uma delas com 3 subespécies, o que eleva para 11 as saúvas do país (Mariconi, 1970, p. 41):

Nome popular

Nome científico

Ocorrência registrada

Saúva mata-pasto

Atta bisphaerica

SP, MG, RJ, sul e norte de MT

Saúva-parda

Atta capiguara

SP, MT e MG

Saúva-da-mata

Atta cephalotes

AM, RO, RR, PA, AP, MA, PE (Recife e arredores) e sul da BA; provável no AC e norte de MT

Saúva

Atta goiana

GO (Aruanã) e MT (Poconé)

Saúva-de-vidro

Atta laevigata

SP, AM, RR, PA, MA, CE, PE, AL, BA, MG, RJ, MT, GO e norte do PR; provável em RO, PI e SE

Saúva do sertão do Nordeste

Atta opaciceps

PI, CE, RN, PB, PE, SE e nordeste da BA; provável em AL

Saúva-preta

Atta robusta

Rio de Janeiro

Saúva-limão-sulina

Atta sexdens piriventris

SP, sul do PR, SC e RS

Saúva-limão

Atta sexdens rubropilosa

SP, sul e centro de MG, ES, RJ, sul de MT, sul de GO, norte e oeste do PR

Formiga-da-mandioca

Atta sexdens sexdens

AM, AC, RO, RR, PA, AP, norte de MT e GO, MA, PI, CE, RN, PB, PE, AL, SE, BA e norte de MG

Saúva

Atta vollenweideri

RS (Uruguaiana) e MT (Porto Murtinho)

Fonte: adaptado de Mariconi (1970, p. 41-43). O livro usa a divisão política de 1970: Guanabara corresponde à atual cidade do Rio de Janeiro, e Mato Grosso incluía o atual Mato Grosso do Sul.

Que saúvas há em cada estado

O autor também organiza a lista por estado (Mariconi, 1970, p. 43-44). Alguns exemplos:

  • Mato Grosso (incluindo o atual MS): a lista mais longa, com bisphaerica, capiguara, goiana, laevigata, sexdens rubropilosa, sexdens sexdens, vollenweideri e, possivelmente, cephalotes.

  • Minas Gerais: bisphaerica, capiguara, laevigata, sexdens rubropilosa e sexdens sexdens.

  • Paraná: laevigata, sexdens piriventris e sexdens rubropilosa.

  • Rio Grande do Sul: sexdens piriventris e vollenweideri.

  • Santa Catarina: apenas sexdens piriventris.

  • Espírito Santo: apenas sexdens rubropilosa.

As saúvas de São Paulo

Em São Paulo ocorriam 5 saúvas, de 4 espécies (Mariconi, 1970, p. 44-45):

  • Mata-pasto: Vale do Paraíba, arredores da capital e centro-leste do estado; parecia não ocorrer no sul, oeste e nordeste.

  • Saúva-de-vidro: provavelmente em quase todo o estado; a mais frequente em numerosos municípios do oeste, centro e nordeste.

  • Saúva-limão: provavelmente em todos os municípios, e a mais frequente em terra roxa; no nordeste e oeste, menos frequente que a cabeça-de-vidro, e no oeste largamente suplantada pela saúva-parda.

  • Saúva-limão-sulina: constatada só em Agudos, Atibaia, Dourado e Itatiba.

  • Saúva-parda: em várias regiões; a mais comum no oeste do estado.

Qual é a saúva mais importante?

Depende. Para Mariconi (1970, p. 45), a mais importante varia conforme a espécie mais frequente e as culturas predominantes. A saúva-limão é a principal nas áreas ricas em dicotiledôneas cultivadas; em algumas regiões, a cabeça-de-vidro; e onde gramíneas como pastagens, milho, arroz ou cana são a principal atividade, a saúva-parda ou a mata-pasto.

Onde a cabeça-de-vidro faz ninho

A cabeça-de-vidro prefere solo pobre a muito pobre; em terra boa é rara, embora no nordeste paulista haja muitos sauveiros dela inclusive em terra fértil. As colônias aparecem a pleno sol ou à sombra, em pastagens, beiras de estrada, eucaliptais, campos, cerrados e lavouras (Paiva Castro; Zamith; Mariconi, 1961; Mariconi, 1966c apud Mariconi, 1970, p. 36). O autor acredita que, em São Paulo, ela seja bem menos exigente em umidade que a saúva-limão (Mariconi, 1970, p. 36).

Nota de atualização

A lista é de 1970. Revisões posteriores mudaram parte da distribuição conhecida, como a ampliação da área da saúva-parda para o Paraná e outros estados registrada por Forti e Boaretto (1997, p. 5). Para a situação mais recente, veja também o artigo sobre distribuição baseado nesse livro.

Referências

FORTI, L. C.; BOARETTO, M. A. C. Formigas cortadeiras: biologia, ecologia, danos e controle. Botucatu: FCA-UNESP, 1997.

MARICONI, F. A. M. As saúvas. São Paulo: Agronômica Ceres, 1970.